Este ano fazem dez anos que eu comecei a usar a internet. Antes disso, meu contato mais próximo com a noção de que um computador podia ligar para outro pelo telefone era o filme "Jogos de Guerra", com o Matthew Broderick. Isso fazia de mim duas coisas: um geek, por adorar "Jogos de Guerra", e um ignorante, por não saber o que era "internet".
Até 1994 meu único computador tinha sido um Gradiente MSX DD Plus (ou seja, com drive de disquete de 3' 1/2), que nada mais era que um videogame glamourizado. No círculo do MSX, as maiores preocupações técnicas eram como fazer um upgrade pra MSX 2+, onde arrumar um cartucho MegaRAM, e qual era mesmo o poke pra rodar os joguinhos das versões anteriores do micro.
Que, por sinal, era "poke -1,0"
Mas eu nunca quebrei a cabeça pra rodar arquivos em um gravador, nunca tinha brigado com os cabos de um drive externo de 5' 1/4, e sabia DOS o suficiente pra copiar um disquete.
Aí veio a Internet. E esse foi o começo.
Eu nunca aprendi tanto, tão rápido, sobre tantas coisas. Eu virei um junkie de informação.
Nos meus tempos de 0800 (porque todo geek que se preza trabalhou num 0800) havia uma senhora maluca, a Dona Lídia, figurinha carimbada e participante habitual. Nos dias ruins a gente revezava: cada um passava cinco minutos fazendo "a-hã" e fingindo interesse, e aí passava o telefone para o próximo. Nos dias bons, a Dona Lídia falava do "tempo real" e do "tempo virtual", quase que prevendo o futuro. Ela reclamava de como era injusto as bolsas de valores do Oriente abrirem depois que o dia do mercado já tinha se encerrado, nossa Bolsa operando baseada em fatos aos quais tivemos que responder de imediato, sem margem a uma possível reflexão.
Claro, a Dona Lídia era completamente insana - afinal, nós fazemos o mesmo com as bolsas orientais já fechadas - mas sua proposta de que as bolsas de todo o planeta operassem de maneira contínua, ininterrupta, todas em um mesmo "fuso", como se fossem um outro planeta, é algo que não está muito longe de se realizar em termos de sistema financeiro, e um fenômeno bastante real no que diz respeito às notícias. Notícias, cultura, tendências e modas, avanços tecnológicos... tudo o que é fruto da intelecção humana, todo produto de conhecimento vai surgindo conforme tem gente acordada.
E sempre tem alguém acordado. Eu estou acordado agora. Você, que está lendo, também.
Bem-vindo a esse tempo extraordinário, virtual e não-linear.
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Eles roubaram nossa revolução. Chegou a hora de roubá-la de volta.